A ignorância que se apresenta como conhecimento

 Há uma espécie particular de ignorância que não se contenta em desconhecer, precisa ensinar, precisa ocupar o lugar de quem sabe, precisa transformar a própria limitação em autoridade, e talvez seja essa uma das contradições mais evidentes do ensino no mercado financeiro, onde não faltam pessoas dispostas a explicar o comportamento dos preços, embora muitas delas sequer compreendam os fundamentos matemáticos necessários para investigar aquilo que afirmam conhecer.

É curioso observar com que facilidade se atribui o título de professor a quem aprendeu a reconhecer desenhos num gráfico, a repetir expressões consagradas ou a construir narrativas convincentes sobre movimentos que já aconteceram, como se a capacidade de descrever o passado representasse conhecimento suficiente para compreender os mecanismos que produzem os acontecimentos, e assim se multiplicam explicações que dispensam demonstrações, métodos que dispensam validação e certezas que jamais foram submetidas ao mais elementar exame estatístico.

Não se exige que todo operador seja matemático, mas seria razoável esperar de quem pretende ensinar o funcionamento dos mercados algum conhecimento sobre probabilidade, distribuições estatísticas, dependência entre variáveis, inferência, séries temporais e modelos quantitativos, porque sem esses fundamentos torna-se difícil distinguir uma relação verdadeira de uma coincidência, uma vantagem operacional de uma sequência aleatória e uma hipótese verificável de uma simples impressão visual.

O problema não está apenas naquilo que esses professores desconhecem, mas principalmente na segurança com que ensinam aquilo que não investigaram, pois a ignorância consciente ainda permite o aprendizado, enquanto a ignorância revestida de autoridade transforma suas próprias limitações em doutrina, e o aluno, desconhecendo a profundidade do que lhe foi omitido, termina por confundir a repetição de procedimentos com a aquisição de conhecimento.

Existe uma diferença imensa entre ensinar alguém a executar uma operação e ensinar alguém a compreender por que determinada decisão poderia possuir uma expectativa matemática favorável, e essa diferença parece desaparecer em grande parte dos discursos comerciais sobre o mercado, nos quais a experiência pessoal ocupa o lugar da evidência, o testemunho substitui a demonstração e o resultado isolado é apresentado como prova de uma regularidade que ninguém se preocupou em verificar.

O mais preocupante é que muitos sequer percebem a dimensão do conhecimento que lhes falta, pois desconhecer um modelo quantitativo é uma limitação perfeitamente superável, mas ignorar a própria ignorância constitui um obstáculo muito maior, especialmente quando se assume a responsabilidade de orientar pessoas que arriscam recursos financeiros reais com base em explicações cuja consistência nunca foi demonstrada.

Talvez o maior problema do ensino no mercado financeiro não seja a existência de professores que sabem pouco, mas a existência de professores que ensinam como se soubessem tudo, porque o conhecimento verdadeiro costuma ampliar a consciência de nossas limitações, enquanto o conhecimento superficial frequentemente produz uma confiança inversamente proporcional à profundidade daquilo que foi compreendido.

E assim permanece uma pergunta incômoda, que raramente encontra espaço nas salas de aula e nas transmissões desses especialistas, se alguém não conhece sequer os instrumentos necessários para medir, testar e validar aquilo que ensina, com que fundamento pode afirmar que compreende o mercado, e talvez a resposta seja mais simples e mais desconfortável do que gostaríamos de admitir, há uma distância enorme entre possuir um método para vender e possuir conhecimento para ensinar.

Comentários

  1. Sua dedicação transforma conhecimento em futuro. Gratidão por tudo! Obrigado Professor João.

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