Quando a confiança se transforma em decepção
Há decepções que não nascem daquilo que perdemos, mas daquilo que descobrimos, porque não é propriamente a atitude de alguém que nos entristece, mas a percepção de que depositamos confiança onde talvez nunca tenha existido a mesma consideração, e então compreendemos que a sinceridade, por mais legítima que seja, não encontra necessariamente sinceridade do outro lado, e que a lealdade, embora seja uma virtude de quem a oferece, não constitui garantia alguma de reciprocidade.
O que verdadeiramente nos fere não é apenas a deslealdade, mas a lembrança de tudo aquilo que fizemos com boas intenções, das oportunidades concedidas, da consideração demonstrada, do respeito que nunca exigiu explicações, porque acreditávamos estar diante de alguém que compreendia o valor dessas coisas, e é doloroso descobrir que aquilo que para nós representava um compromisso moral podia não possuir o mesmo significado para quem o recebia.
Existe ainda uma tristeza particular em perceber que a decepção modifica não apenas o presente, mas também a maneira como passamos a compreender o passado, pois aquilo que antes parecia espontâneo começa a despertar dúvidas, e as lembranças, que deveriam permanecer intactas, acabam submetidas ao julgamento de uma consciência que já não consegue acreditar com a mesma tranquilidade.
Mas talvez a maior injustiça seja permitir que a conduta alheia nos faça sentir vergonha de termos sido corretos, como se confiar fosse ingenuidade, como se oferecer consideração fosse fraqueza, quando, na verdade, a incapacidade de respeitar a confiança recebida revela muito mais sobre quem a desperdiça do que sobre quem a concedeu.
E assim aprendemos, não sem tristeza, que algumas distâncias não são construídas pela ausência de afeto ou consideração, mas pela impossibilidade de continuar enxergando alguém com os mesmos olhos, porque há atitudes que não destroem necessariamente o respeito, mas retiram dele a intimidade da confiança, e aquilo que antes era oferecido espontaneamente passa a exigir uma prudência que jamais imaginávamos necessária.
No fim, o que mais entristece não é descobrir que alguém foi diferente do que esperávamos, mas perceber que fomos sinceros com alguém que não atribuiu à nossa sinceridade o mesmo valor que nós atribuíamos à sua palavra.
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