A Benevolência e a Miséria da Alma Humana

 Uma reflexão sobre a bondade, a consciência, a gratidão e a estranha dificuldade que o ser humano encontra em reconhecer aquilo que recebe sem ter precisado conquistar.

Talvez um dos maiores equívocos da humanidade tenha sido acreditar que a benevolência constitui uma virtude natural do homem, como se nascêssemos todos inclinados a fazer o bem e apenas as circunstâncias, essas eternas culpadas de tudo quanto não queremos compreender, nos desviassem de uma bondade original que ninguém jamais conseguiu demonstrar que realmente existiu. A verdade, se é que nos podemos permitir falar de verdades quando tratamos de assuntos tão profundamente humanos, é que a benevolência exige um esforço que a maldade frequentemente dispensa, porque para prejudicar alguém basta muitas vezes permanecer indiferente, enquanto para beneficiar é necessário reconhecer no outro uma existência tão legítima quanto a nossa, e esse reconhecimento, aparentemente tão simples, representa uma das tarefas mais difíceis que a consciência humana alguma vez teve de realizar. Não é preciso odiar para produzir sofrimento, basta não se importar, e talvez esteja precisamente aí a diferença entre a ausência de maldade e a presença da bondade, pois aquele que não agride pode continuar sendo indiferente, enquanto aquele que pratica a benevolência assume, ainda que silenciosamente, uma parcela de responsabilidade sobre uma vida que não é a sua.

Durante séculos ensinaram-nos que fazer o bem era uma obrigação moral, uma recomendação religiosa ou uma condição necessária para que a sociedade pudesse continuar funcionando sem que os homens se destruíssem mutuamente, mas pouco se discutiu sobre o que verdadeiramente acontece quando alguém decide oferecer a outro aquilo que possui, seja o pão que alimenta, o conhecimento que liberta, o tempo que não regressa ou a compreensão que nenhuma moeda consegue comprar. Porque toda benevolência autêntica representa uma renúncia, não necessariamente ao patrimônio ou ao conforto, mas à ideia de que tudo aquilo que conquistamos deve servir exclusivamente à nossa própria existência. O homem benevolente compreende que possuir alguma coisa não significa necessariamente ter de guardá-la, assim como saber alguma coisa não significa ter de escondê-la, e nessa compreensão reside uma forma extraordinária de liberdade, a liberdade de não ser prisioneiro daquilo que se acumulou. Contudo, seria ingenuidade imaginar que tal liberdade seja recebida com a mesma grandeza com que é oferecida, porque o mundo não está organizado para reconhecer a generosidade, mas para calcular vantagens, e quase sempre procura descobrir, por detrás de um gesto desinteressado, o interesse que justificaria a sua existência.

Quando alguém oferece alguma coisa sem exigir pagamento, a primeira reação de muitos não é a gratidão, mas a suspeita, porque estamos tão habituados à comercialização das relações humanas que a ausência de preço nos parece uma anomalia. Perguntamos o que pretende aquele homem, que vantagem espera obter, que compromisso oculto estará tentando estabelecer, e não percebemos que, ao fazer essas perguntas, estamos revelando muito mais sobre a nossa maneira de compreender o mundo do que sobre as intenções daquele que nos estendeu a mão. O pensamento humano adquiriu uma curiosa deficiência, tornou-se particularmente competente para identificar interesses e extraordinariamente limitado para reconhecer desprendimentos. Acreditamos com facilidade na exploração, porque ela confirma aquilo que sabemos dos homens, mas desconfiamos da benevolência, porque ela nos obriga a admitir que alguém possa agir segundo princípios que nós mesmos talvez já tenhamos abandonado.

Há ainda uma injustiça mais silenciosa, aquela que transforma a benevolência continuada numa espécie de obrigação involuntária. Um homem oferece ajuda uma vez e recebe agradecimentos, oferece pela segunda vez e recebe reconhecimento, oferece pela terceira e começa a despertar expectativas, até que, depois de muitas demonstrações de generosidade, aquilo que era um gesto livre passa a ser interpretado como um dever permanente. O beneficiado, que inicialmente compreendia a excepcionalidade do que recebia, acostuma-se pouco a pouco à sua existência, como quem deixa de reparar na luz porque nunca conheceu uma casa escura, e chega finalmente o dia em que a ajuda deixa de acontecer, não por crueldade, mas porque o homem que ajudava também possui necessidades, limites e cansaços, e então ocorre uma das mais extraordinárias inversões da moral humana, aquele que ofereceu durante anos passa a ser acusado pelo único dia em que não pôde oferecer. Esquece-se tudo quanto foi dado e recorda-se apenas aquilo que deixou de ser recebido, como se a gratidão fosse uma memória de curta duração e a cobrança uma faculdade destinada à eternidade.

É necessário compreender que a benevolência não transforma quem a pratica em propriedade de quem a recebe. A bondade não é um contrato de servidão, não estabelece um direito perpétuo sobre a disponibilidade alheia, não autoriza ninguém a converter a generosidade de outra pessoa numa obrigação sem limites. O homem benevolente continua sendo homem, sujeito às mesmas fraquezas, aos mesmos temores, às mesmas necessidades de repouso e aos mesmos direitos de recusar, porque uma virtude que não permite a liberdade de interromper-se deixa de ser virtude e converte-se em condenação. Talvez por isso seja tão importante distinguir a verdadeira benevolência da submissão, pois há pessoas que oferecem porque desejam beneficiar e outras que oferecem porque temem desagradar, e embora os gestos possam parecer idênticos, as consciências que os produzem encontram-se em lugares profundamente diferentes. Quem ajuda por liberdade pratica a generosidade, quem ajuda exclusivamente por medo pode estar apenas negociando a própria aceitação.

Também não devemos confundir benevolência com superioridade moral, porque há uma forma disfarçada de arrogância naquele que oferece alguma coisa para poder contemplar a própria grandeza. Conhecemos todos, ainda que nem sempre o admitamos, a figura do benfeitor que precisa de testemunhas, daquele que transforma cada gesto de auxílio numa cerimônia em homenagem à sua virtude, como se a fome do necessitado tivesse surgido especialmente para proporcionar ao generoso a oportunidade de demonstrar a qualidade de sua alma. Essa benevolência teatral não procura tanto aliviar o sofrimento quanto produzir admiração, e por isso exige gratidão pública, reconhecimento permanente e, sempre que possível, uma posição de autoridade sobre o beneficiado. Não oferece simplesmente uma mão, oferece uma mão acompanhada da lembrança de que foi estendida, e essa lembrança, repetida tantas vezes quantas forem necessárias, acaba por transformar o auxílio numa dívida moral que ninguém consegue liquidar. A verdadeira benevolência, ao contrário, não precisa humilhar para beneficiar, porque compreende que a dignidade daquele que recebe vale tanto quanto a intenção daquele que oferece.

Poderíamos perguntar, então, se existe realmente alguma benevolência inteiramente desinteressada, pois até o homem que ajuda sem esperar recompensa experimenta, muitas vezes, uma satisfação íntima por ter feito aquilo que considera correto. Mas seria um erro confundir a alegria produzida pela consciência com o interesse calculado de quem procura uma vantagem. Nem toda satisfação constitui egoísmo, assim como nem todo sacrifício representa virtude. O homem que oferece alimento a outro e sente contentamento ao vê-lo alimentado não está necessariamente comprando felicidade com a miséria alheia, pode simplesmente estar experimentando uma consequência natural da sua capacidade de reconhecer o sofrimento. A consciência moral não exige que o bem seja praticado com tristeza para que seja legítimo, exige apenas que o outro não seja reduzido a instrumento da nossa satisfação. Fazer o bem e sentir-se bem por isso não constitui contradição, a contradição surge quando deixamos de fazer o bem porque ele já não produz aplausos, benefícios ou reconhecimento.

Mas talvez a manifestação mais elevada da benevolência não esteja naquilo que entregamos materialmente, e sim naquilo que permitimos que o outro se torne. Dar pão a um homem faminto é um ato necessário, mas ensinar-lhe a produzir o próprio alimento pode representar uma transformação muito maior, desde que esse ensinamento não venha acompanhado da pretensão de governar-lhe a vida. Da mesma maneira, compartilhar conhecimento constitui uma forma particularmente profunda de generosidade, porque o conhecimento possui uma propriedade que o distingue de quase todas as coisas materiais, pode ser transmitido sem que aquele que o oferece fique necessariamente privado daquilo que possuía. Quem divide um pão fica com menos pão, quem divide uma ideia pode terminar com uma compreensão ainda maior do que tinha antes, pois explicar obriga a organizar o pensamento, responder obriga a examinar certezas, e ensinar, quando verdadeiramente praticado, transforma também aquele que ensina. Seria razoável esperar, portanto, que uma riqueza capaz de multiplicar-se pela partilha despertasse uma gratidão igualmente extraordinária, mas não é isso que observamos, porque o homem frequentemente reconhece com maior facilidade o valor daquilo que lhe custa dinheiro do que o valor daquilo que lhe custa apenas atenção.

Há pessoas capazes de pagar quantias consideráveis por ensinamentos superficiais e, ao mesmo tempo, tratar com indiferença o conhecimento profundo que alguém lhes oferece gratuitamente. Não se trata necessariamente de incapacidade intelectual, mas de uma distorção na maneira como atribuímos valor às coisas. O preço tornou-se, para muitos, uma espécie de certificado de importância, e aquilo que não possui preço parece não possuir mérito. Esquecem-se essas pessoas de que o conhecimento gratuito não é conhecimento sem custo, apenas significa que o custo foi suportado por alguém que decidiu não transferi-lo integralmente ao beneficiado. Houve anos de estudo, erros repetidos, noites de investigação, dúvidas superadas, oportunidades perdidas, recursos consumidos e uma quantidade de vida que jamais poderá ser recuperada. Aquilo que chega gratuitamente às mãos de um homem pode ter custado décadas à inteligência de outro, e a ausência de cobrança não elimina o esforço que tornou possível a oferta.

Contudo, também seria necessário reconhecer que ninguém adquire um direito sobre a consciência de outro apenas porque lhe transmitiu conhecimento. A generosidade não pode transformar-se numa exigência de obediência, nem a gratidão deve ser confundida com submissão intelectual. Aquele que ensina merece respeito pelo esforço realizado, mas o verdadeiro valor de seu ensinamento manifesta-se justamente quando o aprendiz conquista a capacidade de pensar por si mesmo, inclusive de discordar de quem o ensinou. Existe uma benevolência que liberta e outra que conserva dependências, e distingui-las é essencial, porque não basta oferecer aquilo que possuímos, é preciso perguntar se a maneira como oferecemos aumenta a liberdade de quem recebe ou apenas amplia a influência de quem dá. O mestre que deseja discípulos eternamente dependentes não transmite integralmente o conhecimento, administra a ignorância, distribuindo pequenas porções de luz para que ninguém consiga caminhar sem regressar à sua porta.

A gratidão, por sua vez, permanece como uma das manifestações mais delicadas e menos compreendidas da consciência. Não deveria constituir uma obrigação imposta pelo benfeitor, porque a gratidão exigida perde parte de sua autenticidade, mas também não deveria desaparecer simplesmente porque ninguém a exigiu. Entre a cobrança de reconhecimento e a indiferença de quem recebe existe um espaço moral onde deveria habitar a reciprocidade humana, não a reciprocidade contábil, que procura devolver exatamente aquilo que foi recebido, mas a disposição de reconhecer que a nossa existência foi, em algum momento, favorecida pela existência de outra pessoa. Ninguém aprende sozinho tudo quanto sabe, ninguém constrói isoladamente tudo quanto possui, ninguém chega à maturidade intelectual sem ter atravessado os pensamentos de outros homens, e talvez a gratidão mais inteligente seja aquela que transforma o benefício recebido numa responsabilidade de não interromper a circulação do bem. Não é necessário devolver ao mesmo homem aquilo que ele ofereceu, muitas vezes isso nem sequer seria possível, mas podemos oferecer a outros alguma coisa daquilo que aprendemos, compreendemos ou conquistamos graças à sua generosidade.

Ser benevolente, entretanto, não significa ser ingênuo diante da natureza humana. Existe uma tendência sentimental, tão confortável quanto perigosa, de imaginar que a bondade deva permanecer disponível mesmo quando encontra exploração deliberada, como se impor limites representasse uma espécie de derrota moral. Mas a consciência que reconhece o sofrimento alheio não deve, por isso, perder a capacidade de reconhecer a manipulação. A benevolência não exige que entreguemos indefinidamente aquilo que possuímos a quem se recusa a respeitar a nossa liberdade, nem que confundamos necessidade verdadeira com exigência oportunista. Um homem pode recusar um pedido e continuar sendo generoso, assim como pode aceitar todos os pedidos e não possuir nenhuma generosidade, se o fizer exclusivamente para preservar a imagem que construiu de si mesmo. Há ocasiões em que a recusa ensina mais do que a concessão, não porque a privação seja desejável, mas porque algumas dependências só começam a desaparecer quando o beneficiado descobre que também possui responsabilidades sobre a própria vida.

Seria igualmente equivocado imaginar que a benevolência individual possa substituir a justiça coletiva. Uma sociedade não se torna justa apenas porque possui pessoas dispostas a socorrer aqueles que foram abandonados pelas suas instituições. Há uma diferença profunda entre aliviar as consequências da injustiça e eliminar as condições que a produzem. A caridade pode alimentar hoje aquele que tem fome, mas não deveria servir de desculpa para que amanhã a fome continue sendo considerada um acontecimento natural. A benevolência torna-se moralmente incompleta quando se contenta em remediar indefinidamente sofrimentos que poderiam ser evitados. Talvez por isso seja conveniente, para determinadas organizações sociais, celebrar os homens generosos sem examinar com demasiada atenção as razões pelas quais a generosidade deles se tornou indispensável. Louva-se a mão que distribui o pão, mas raramente se pergunta por que tantas outras mãos permanecem vazias, e assim a virtude privada acaba por oferecer uma aparência de humanidade a estruturas que poderiam ser muito menos desumanas.

No íntimo das relações pessoais, porém, a benevolência revela uma dificuldade ainda maior, porque não basta compreender racionalmente a necessidade de fazer o bem, é preciso suportar a possibilidade de que o bem praticado jamais seja reconhecido. Talvez seja essa a prova mais exigente da generosidade, continuar considerando correto aquilo que fizemos mesmo quando a pessoa beneficiada demonstra esquecimento, ingratidão ou até hostilidade. Não se trata de recomendar uma paciência ilimitada com os abusos, mas de reconhecer que o valor moral de uma ação não pode depender inteiramente da reação de quem a recebe. Se o bem só permanece sendo bem quando nos agradecem, então não era propriamente o bem que procurávamos, mas a recompensa emocional que esperávamos encontrar depois dele. A benevolência autêntica conserva seu significado mesmo quando fracassa em produzir reconhecimento, embora isso não obrigue quem a praticou a repetir eternamente a mesma experiência.

Curiosamente, os homens parecem encontrar maior facilidade em perdoar a riqueza alheia do que a superioridade moral que julgam perceber em alguém. Podemos admirar aquele que possui mais dinheiro, mais influência ou mais prestígio, porque essas diferenças pertencem a uma hierarquia que aprendemos a aceitar, mas quando encontramos alguém capaz de uma generosidade que nós próprios não conseguiríamos praticar, experimentamos por vezes um desconforto difícil de confessar. A existência desse homem lembra-nos possibilidades que negligenciamos, decisões que evitamos, pequenas covardias que preferíamos manter esquecidas, e então, em vez de reconhecer o exemplo, procuramos diminuir o gesto, descobrir defeitos na intenção, questionar a sinceridade, atribuir vaidade àquilo que talvez tenha sido apenas compaixão. Há uma forma de inveja que não deseja possuir os bens de outro, deseja negar-lhe as virtudes, porque admitir essas virtudes obrigaria a consciência a confrontar as próprias insuficiências.

Também convém observar que a benevolência não se manifesta exclusivamente nos grandes gestos, esses acontecimentos extraordinários que merecem ser contados e repetidos até adquirirem a aparência de lendas. Ela habita frequentemente as pequenas decisões que ninguém presencia, na paciência de quem explica mais uma vez aquilo que já explicou muitas, na discrição de quem poderia expor uma fraqueza alheia e prefere preservá-la, na honestidade de quem corrige um erro mesmo quando poderia beneficiar-se dele, na delicadeza de quem compreende que uma palavra desnecessária pode produzir uma ferida duradoura. Há uma benevolência que se realiza pelo que fazemos e outra, talvez igualmente importante, pelo mal que conscientemente decidimos não fazer. Não humilhar quando seria fácil, não explorar quando seria lucrativo, não abandonar quando seria conveniente, não transformar a vulnerabilidade de outro numa oportunidade de domínio, tudo isso exige uma vigilância interior que raramente recebe reconhecimento, justamente porque seus resultados são acontecimentos que não chegaram a existir.

E que dizer da benevolência para consigo mesmo, essa virtude frequentemente esquecida pelos que confundem bondade com esgotamento. O homem que se exige infinitamente, que considera cada descanso uma fraqueza e cada recusa uma culpa, pode terminar por destruir as próprias condições que lhe permitiam oferecer alguma coisa aos outros. Não existe grandeza em consumir a própria vida para satisfazer expectativas que nunca cessam, assim como não existe egoísmo necessário em preservar uma parte do tempo, da energia e da inteligência para a própria existência. A benevolência precisa incluir aquele que a pratica, não como privilégio, mas como reconhecimento de que também ele pertence à humanidade que procura beneficiar. Uma consciência incapaz de conceder a si mesma a compreensão que oferece aos demais corre o risco de transformar a virtude numa forma lenta de autodestruição.

Talvez a maior dificuldade esteja em aceitar que a benevolência não corrige automaticamente a natureza humana. Um gesto generoso não transforma necessariamente um egoísta em alguém generoso, assim como a transmissão de conhecimento não transforma obrigatoriamente um ignorante em alguém sábio. Entre receber e compreender existe uma distância considerável, e entre compreender e transformar a própria conduta existe outra ainda maior. O homem pode reconhecer intelectualmente a bondade de um gesto e continuar incapaz de reproduzi-lo, porque a consciência moral não se desenvolve apenas pela acumulação de exemplos, exige decisões, renúncias e uma disposição permanente de contrariar os próprios interesses quando estes entram em conflito com a dignidade alheia. Não basta conhecer a virtude, assim como não basta conhecer a verdade, porque ambas podem permanecer perfeitamente instaladas na inteligência sem jamais alcançar as mãos.

Se quiséssemos imaginar uma sociedade verdadeiramente benevolente, não deveríamos concebê-la como uma multidão de homens permanentemente dispostos ao sacrifício, mas como uma comunidade na qual o sofrimento alheio não fosse recebido com indiferença e a generosidade não fosse confundida com fraqueza. Nessa sociedade imaginária, talvez não fosse necessário agradecer de maneira exagerada cada pequena demonstração de humanidade, porque a humanidade teria deixado de ser uma exceção, mas seria igualmente inconcebível transformar aquilo que recebemos gratuitamente numa coisa desprovida de valor. Os homens compreenderiam que ninguém é obrigado a oferecer tudo quanto possui e que, justamente por isso, cada oferta voluntária contém uma escolha digna de reconhecimento. A gratidão não seria uma cerimônia de submissão, seria uma forma natural de lucidez, a capacidade de perceber que, por um momento, alguém decidiu colocar o nosso bem-estar entre as coisas que considerava importantes.

No entanto, ainda estamos longe dessa sociedade, e talvez continuemos longe por muito tempo, porque o progresso material demonstrou uma capacidade admirável de multiplicar instrumentos sem produzir, na mesma proporção, a maturidade necessária para utilizá-los. Aprendemos a comunicar-nos instantaneamente com homens que vivem do outro lado do planeta, mas continuamos incapazes de escutar com atenção aquele que está sentado diante de nós. Construímos sistemas capazes de armazenar uma quantidade quase ilimitada de conhecimento, mas ainda discutimos se vale a pena compartilhá-lo. Desenvolvemos máquinas que substituem esforços físicos e intelectuais, porém não conseguimos dispensar as pequenas crueldades que praticamos para conquistar vantagens insignificantes. Talvez a humanidade tenha confundido a expansão de suas capacidades com o aperfeiçoamento de sua consciência, esquecendo que ser capaz de fazer mais coisas não significa necessariamente ser capaz de fazer coisas melhores.

É possível que a benevolência seja, afinal, uma das poucas atitudes humanas que desafiam diretamente a lógica da escassez moral que construímos. Estamos habituados a imaginar que aquilo que concedemos a alguém necessariamente nos diminui, que o reconhecimento oferecido ao outro reduz a importância que atribuímos a nós mesmos, que a liberdade alheia limita a nossa, que o sucesso de alguém representa uma ameaça ao nosso valor. A benevolência recusa silenciosamente essa contabilidade, porque reconhece que nem todas as riquezas precisam ser acumuladas para existir e nem todas as relações precisam produzir vencedores e vencidos. Quando um homem ajuda outro a compreender alguma coisa, não está necessariamente criando um concorrente, pode estar ampliando o universo das consciências capazes de produzir novas ideias. Quando oferece uma oportunidade, não está necessariamente perdendo uma posição, pode estar contribuindo para a existência de possibilidades que antes não existiam.

Mas seria preciso chegar a uma conclusão que talvez desagrade tanto aos que oferecem quanto aos que recebem, a de que a benevolência, por mais nobre que seja, não concede santidade a ninguém nem dispensa ninguém de responsabilidade. Aquele que ajuda continua sujeito aos erros, às contradições e às vaidades humanas, e aquele que recebe não se transforma por isso em devedor perpétuo, embora permaneça moralmente responsável pela maneira como compreende e utiliza aquilo que lhe foi oferecido. Não devemos exigir perfeição do benfeitor nem absolver automaticamente a indiferença do beneficiado. A maturidade moral começa precisamente quando deixamos de considerar a generosidade uma transação e passamos a compreendê-la como um encontro entre duas liberdades, a liberdade de oferecer e a liberdade de receber, ambas acompanhadas da responsabilidade de não degradar a dignidade da outra.

No fim de tudo, talvez o problema fundamental da benevolência não esteja em descobrir por que alguns homens fazem o bem, mas em compreender por que tantos outros, depois de terem sido beneficiados, encontram tamanha dificuldade em reconhecer o significado daquilo que receberam. Não se pede que vivam ajoelhados diante de quem os ajudou, porque gratidão ajoelhada não é gratidão, é dependência, nem se espera que renunciem às próprias conquistas para homenagear aqueles que contribuíram para torná-las possíveis. Espera-se apenas que possuam a honestidade de reconhecer que certas portas não foram abertas exclusivamente pelas suas mãos, que alguns caminhos já estavam iluminados quando chegaram e que parte da sabedoria que hoje consideram sua começou, muito antes, na paciência de alguém que decidiu ensinar sem exigir uma recompensa imediata.

E se algum dia esses homens forem capazes de oferecer a outros aquilo que receberam, talvez compreendam finalmente a dimensão do gesto que um dia lhes pareceu tão simples, porque descobrirão que a generosidade não nasce da abundância, mas da decisão de repartir mesmo quando aquilo que possuímos exigiu esforço para ser conquistado. Descobrirão também que oferecer não é fácil, que ensinar cansa, que compreender exige paciência, que ajudar pode produzir decepções, que o reconhecimento nem sempre chega e que a indiferença, quando vem de quem beneficiamos, possui um peso particularmente difícil de suportar. Nesse momento poderão perceber que aquilo que durante tanto tempo consideraram uma facilidade alheia era, na realidade, uma disciplina da consciência, uma escolha repetida diante de circunstâncias que nem sempre a justificavam.

Porque a benevolência não deve ser medida apenas pelo que sai das mãos de quem oferece, mas também pelo que permanece na vida de quem recebe. Um alimento pode desaparecer depois de uma refeição, um auxílio financeiro pode extinguir-se em poucos dias, mas uma compreensão verdadeira, uma oportunidade justa, um conhecimento transmitido com generosidade podem atravessar décadas e modificar destinos que nunca conheceremos. Há homens cuja influência continua produzindo benefícios muito depois de seus nomes terem sido esquecidos, porque aquilo que ensinaram foi ensinado novamente, aquilo que compreenderam permitiu novas compreensões, e o bem que praticaram deixou de lhes pertencer para incorporar-se à experiência de outras pessoas. Talvez seja essa a forma mais elevada de permanência a que podemos aspirar, não sermos lembrados eternamente, mas termos contribuído para que alguma coisa digna de permanecer continue existindo.

E chegamos assim a uma última contradição, talvez a mais humana de todas, a de que desejamos viver num mundo onde a benevolência seja abundante, mas nem sempre estamos dispostos a assumir o trabalho necessário para produzi-la. Queremos encontrar compreensão quando erramos, paciência quando demoramos, auxílio quando precisamos, conhecimento quando ignoramos e generosidade quando nada temos a oferecer em troca, mas, quando chega a nossa vez de compreender, esperar, auxiliar, ensinar ou repartir, descobrimos uma infinidade de razões perfeitamente razoáveis para adiar aquilo que antes considerávamos indispensável. A humanidade possui uma extraordinária competência para reconhecer as virtudes que lhe faltam nos outros e uma habilidade igualmente extraordinária para justificar a ausência dessas mesmas virtudes em si própria.

Talvez, portanto, a benevolência não seja uma qualidade que possuímos definitivamente, como quem guarda um objeto precioso numa gaveta, mas uma decisão que precisa ser renovada em cada encontro, em cada circunstância e em cada possibilidade de escolher entre a indiferença e a responsabilidade. Não há homem tão benevolente que esteja dispensado de voltar a escolher o bem, nem homem tão indiferente que tenha perdido para sempre a possibilidade de escolhê-lo. Somos menos aquilo que declaramos ser do que aquilo que fazemos quando nossa conduta deixa de ser observada, e nesse espaço silencioso, onde não existem aplausos, testemunhas ou recompensas, talvez resida a verdadeira medida da nossa humanidade.

Porque, quando todas as justificações tiverem sido apresentadas, quando os interesses tiverem sido calculados, quando os discursos sobre a moral tiverem terminado e cada homem estiver novamente sozinho diante da própria consciência, restará uma pergunta tão simples que quase parecerá infantil, e talvez por isso mesmo tão difícil de responder com absoluta sinceridade, tendo tido a possibilidade de tornar menos pesada a existência de outro ser humano, por que razão escolhemos não fazê-lo.

E pode ser que a história da humanidade, apesar de todos os seus impérios, descobertas, guerras, religiões, filosofias e extraordinárias conquistas, venha um dia a ser julgada não pela quantidade de poder que conseguiu acumular, mas pela quantidade de sofrimento que poderia ter evitado e, podendo evitá-lo, deixou permanecer.

Pois a benevolência não consiste em demonstrar ao outro o quanto somos bons, mas em reconhecer que a sua existência merece consideração mesmo quando nada temos a ganhar com ela, e talvez a verdadeira pobreza de um homem não comece quando lhe falta dinheiro, conhecimento ou reconhecimento, mas quando, possuindo alguma coisa que poderia beneficiar alguém, já não consegue encontrar dentro de si uma razão para compartilhá-la.

Porque há uma miséria que nasce da falta daquilo que precisamos para viver, e há outra, incomparavelmente mais profunda, que nasce da incapacidade de reconhecer que os outros também precisam viver. A primeira pode ser consequência das circunstâncias, a segunda é uma derrota da consciência. E talvez seja precisamente para impedir essa segunda pobreza que a benevolência ainda mereça ser considerada uma das maiores conquistas possíveis do espírito humano.

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