Postagens

O somatório de predições individuais de futuros gera o próprio futuro

Um modelo científico de reflexividade  A frase parece poética, mas ela descreve uma estrutura formal muito conhecida nas ciências sociais, na economia e na teoria de mercados: quando crenças sobre o amanhã alteram decisões hoje, e essas decisões alteram o mundo, o amanhã passa a ser parcialmente produzido pelas crenças que o anteciparam. Esse é o núcleo da profecia autorrealizável de Merton e do teorema de Thomas, isto é, definições subjetivas de situação tornam-se objetivas em suas consequências porque reorganizam comportamento coletivo. No WINFUT isso não é metáfora. O preço do contrato é uma resultante operacional de ordens que chegam ao livro porque cada participante está tentando se posicionar diante de futuros esperados, diante de futuros temidos, e diante de futuros que imagina que outros estão imaginando. O contrato é um dispositivo de agregação de expectativas e, portanto, um dispositivo de materialização de predições. Assim, quando se afirma que o somatório de predições...

O presente é moldado pelo futuro

  Uma formulação neurocognitiva e decisória  Existe uma maneira rigorosa de entender a frase o presente é moldado pelo futuro sem apelar a qualquer mistério temporal. Basta aceitar um ponto que a ciência cognitiva vem repetindo por décadas com diferentes vocabulários: percepção não é fotografia, é inferência; memória não é arquivo, é reconstrução; decisão não é etapa final, é componente ativo do próprio perceber. Em outras palavras, o que chamamos de presente é uma hipótese operacional produzida sob restrições. E a principal restrição não vem apenas do que está entrando pelos sentidos agora, ela vem do que pode acontecer em seguida e do que custará errar. O futuro entra como risco, utilidade, ameaça, recompensa e penalidade, e por isso ele molda o que o cérebro escolhe ver, ignorar, lembrar e executar no instante presente. No WINFUT isso fica especialmente claro porque o próprio instrumento já é uma tecnologia de futuro. O contrato é uma ponte entre expectativas e preço, ent...

Negação da realidade - Personas

 Ele não nega a realidade como quem não enxerga. Ele nega como quem enxerga demais e escolhe não aceitar. Existe uma diferença sutil entre ignorância e recusa. A ignorância é ausência de leitura. A recusa é leitura com veto. Ele vê o dado que contraria a narrativa, percebe o sinal de alerta, reconhece a incoerência, mas o cérebro dele não permite que aquilo atravesse a membrana que protege a autoimagem. Porque se atravessar, não derruba apenas uma ideia, derruba um personagem inteiro. E ele construiu esse personagem para sobreviver. A narrativa interna dele costuma ser simples e confortável. Eu sou bom. Eu tenho visão. Eu só preciso de tempo. Eu estou perto do ajuste fino. Eu tenho um diferencial que os outros não têm. Essa história não é apenas orgulho. É um abrigo psicológico. E todo abrigo precisa de uma porta que filtre o que entra. A negação é essa porta. Quando o mercado apresenta evidências de que a tese está fraca, de que a leitura foi enviesada, de que a perda não foi aza...

A Estética da Dúvida: Questionar como Performance e não como Método

 Existe um fenômeno real, mas ele não é exclusivo do mercado financeiro e nem acontece com todo mundo. É o uso de linguagem e de postura crítica como instrumento de status, pertencimento e autoproteção, principalmente em ambientes em que a verificação é difícil, a variância é alta e os resultados podem ser explicados por múltiplas narrativas. O mercado amplifica isso porque permite entrada rápida, recompensa intermitente e uma ilusão de causalidade pessoal. Ainda assim, a mesma dinâmica aparece em política, saúde, tecnologia, filosofia de internet, qualquer lugar onde o vocabulário impressiona mais do que a auditoria do método. O ponto não é dizer que o trader médio não entende nada, mas que o ambiente cria um convite permanente para parecer entender, e esse convite é mais forte quando a pessoa está ansiosa por reconhecimento. A sedução por conceitos frágeis costuma nascer quando a pessoa descobre que questionar é mais barato do que construir. Construir é lento, porque exige defin...

A Consistência sem Sobrevivência é Só Mentira Bem Contada

 Você vive repetindo que é consistente, como se a palavra tivesse poder de apagar o que os seus números gritam. Você fala consistência com a mesma facilidade com que alguém fala fé, porque sabe que é uma palavra que impressiona quem não sabe ler sobrevivência. Só que o trade não é um lugar onde a narrativa manda. O trade é um lugar onde a narrativa morre primeiro. Porque aqui não existe versão oficial, existe rastro. Existe horário. Existe execução. Existe preço médio. Existe stop estourado. Existe a sequência inteira, sem edição, sem corte, sem o enquadramento que você escolhe para se proteger. E é por isso que a mentira do trader não tem como esconder. Ela sempre aparece. Ela aparece não porque alguém descobre, mas porque a realidade é insistente e o mercado é um detector de verdade que não precisa te desmentir em voz alta. Ele só cobra. Você pode inventar contexto, pode culpar notícia, pode dizer que foi “ruído”, pode chamar de “manipulação” tudo aquilo que apenas não obedeceu ...

A primeira perda como gatilho de prioridade

  Quando vem a primeira perda do dia, quase nunca é só um número no resultado financeiro. Para o cérebro, aquilo pode ser interpretado como um sinal de ameaça, de perda de controle, de risco imediato. E quando o cérebro entra nesse modo, ele muda a prioridade interna: o objetivo deixa de ser operar bem e passa a ser reduzir desconforto, recuperar status, voltar para um lugar emocionalmente tolerável. É aí que começa a espiral do “eu sei o que devo fazer, mas não consigo fazer”, pode ser a falha mais perigosa do pregão. 1. A perda aumenta peso emocional e vira prioridade de decisão Em teoria, uma perda e um ganho do mesmo tamanho deveriam ter o mesmo peso. Na prática, o cérebro não trata assim. Ele trata a perda como mais importante. Não é uma metáfora. É um padrão robusto chamado aversão à perda: perder dói mais do que ganhar alegra, mesmo quando os valores são equivalentes. E isso muda o seu comportamento de forma previsível. O ponto crítico é que a primeira perda não entra ...

Alta Performance Sem Preço: A Mentira Que o Ego Conta

 Existe um tipo de ego particularmente eficiente em destruir qualquer possibilidade de alta performance, e ele não faz isso por preguiça explícita, nem por ignorância simples, mas por uma fraude íntima e bem disfarçada. É o ego que não aceita a própria recusa em estudar, porque aceitar isso significaria encarar uma verdade que fere a autoimagem: eu não estou falhando por falta de método, eu estou falhando porque não estou disposto ao preço do método. Essa frase, quando finalmente aparece com nitidez, desmonta a fantasia de merecimento, e por isso ela é evitada com todas as forças. O ego, para sobreviver, precisa manter viva a crença de que a grande performance ainda é “meu destino natural”, apenas interrompido por fatores externos, pelo mercado injusto, pelo mentor ruim, pelo conteúdo superficial, pelo sistema manipulado, pelo mundo que não reconhece minha capacidade. O que está em jogo não é o resultado, é a identidade. Não é o acerto, é a manutenção de um personagem interno que s...