Negação da realidade - Personas

 Ele não nega a realidade como quem não enxerga. Ele nega como quem enxerga demais e escolhe não aceitar. Existe uma diferença sutil entre ignorância e recusa. A ignorância é ausência de leitura. A recusa é leitura com veto. Ele vê o dado que contraria a narrativa, percebe o sinal de alerta, reconhece a incoerência, mas o cérebro dele não permite que aquilo atravesse a membrana que protege a autoimagem. Porque se atravessar, não derruba apenas uma ideia, derruba um personagem inteiro. E ele construiu esse personagem para sobreviver.

A narrativa interna dele costuma ser simples e confortável. Eu sou bom. Eu tenho visão. Eu só preciso de tempo. Eu estou perto do ajuste fino. Eu tenho um diferencial que os outros não têm. Essa história não é apenas orgulho. É um abrigo psicológico. E todo abrigo precisa de uma porta que filtre o que entra. A negação é essa porta. Quando o mercado apresenta evidências de que a tese está fraca, de que a leitura foi enviesada, de que a perda não foi azar, mas estrutura, ele não discute com o preço. Ele discute com o significado. O preço pode até estar contra ele, mas ele transforma isso em ruído temporário para não tocar na possibilidade mais dolorosa. A possibilidade de que ele errou porque ainda não sabe.

Por isso ele faz uma coisa típica. Ele seleciona os fatos que confirmam e descarta os fatos que ameaçam. Ele pega uma notícia que apoia seu lado e a eleva a verdade absoluta. Ele vê um candle que parece confirmar e trata como prova definitiva. Mas quando aparece um volume que contradiz, um rompimento que invalida, um fluxo que diz o oposto, ele reduz, relativiza, explica demais, cria exceções, busca um detalhe técnico para desativar a evidência. Não é análise. É defesa. A análise busca contato com o real para ajustar a ação. A defesa busca afastar o real para preservar a imagem. E aqui a imagem é sagrada, porque é ela que sustenta a sensação de controle e superioridade que ele precisa para não colapsar.

No trading, essa negação vira uma mecânica concreta e perigosa. Stop vira sugestão. Alvo vira promessa emocional. Gestão vira discurso bonito que não se aplica quando dói. Ele diz que segue plano, mas quando o plano mostra que ele perdeu, ele renegocia com o plano como se estivesse renegociando com um juiz. Ele adia a aceitação. Ele aumenta a margem. Ele muda o critério. Ele procura uma nova justificativa para permanecer dentro do trade, não porque o mercado mudou, mas porque ele não suporta a frase interna que seria necessária. Eu estava errado.

E o ponto mais trágico é que ele chama isso de convicção. Ele diz que é resiliência. Ele se orgulha de não desistir. Só que, por trás, é medo de perder o personagem. Ele não está defendendo capital. Ele está defendendo identidade. Ele não está tentando manter o trade. Ele está tentando manter intacta a própria imagem de alguém que acerta. Então ele se torna prisioneiro de uma realidade paralela, uma realidade onde sempre existe uma explicação que o absolve, sempre existe um motivo externo, sempre existe um detalhe que “ainda não foi considerado”, sempre existe um amanhã que vai provar que ele estava certo. E enquanto ele vive nessa realidade, ele evita a única dor que cura. A dor de encarar a própria limitação com honestidade e, a partir disso, construir competência real.

A negação é um anestésico de curto prazo. Ela reduz a vergonha agora. Mas cobra juros no futuro. Porque cada vez que ele ignora um dado para proteger a autoimagem, ele treina o cérebro a preferir conforto ao contato com o real. E no mercado, conforto é o caminho mais rápido para o erro repetido, só que com convicção crescente.

Comentários

  1. Isso serve como uma ótima reflexão que tenho que fazer todos os dias. Acreditar mais nos códigos e nos indicadores e deixar que o tempo se encarregue do resto.

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